Análise de Mercado #1

Hugo no Corinthians e Renato Augusto no Fluminense

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Fluminense
Percentil
Estatística
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Volante Subversivo

Published

13/12/2023

Introdução: começa a janela!

É oficial: a janela de transferências está aberta. E, com ela, temos uma nova onda de especulações, debates, conversas e discussões intermináveis sobre quem vai para onde. Enquanto isso, os times fazem estratégias, contratam craques, arrumam o elenco, se desfazem de jogadores e assim vão se preparando para uma nova temporada cheia de novidades. Sem dúvidas, este é um momento também de adrenalina e apreensão e muitos fãs são apaixonados por estas movimentações: inclusive, 598 torcedores ingleses (até o momento desta publicação) chegaram a assinar uma petição para o congresso britânico tornar o último dia da janela de transferência feriado nacional!

Esta ideia não nos parece nem um pouco ruim! Contudo, precisamos reconhecer que, quando olhamos e discutimos sobre os jogadores que chegam e vão, não temos muita ideia de como foi sua temporada em geral. Certamente vimos um ou dois jogos deles, mas não temos acompanhado com tanto afinco assim para termos convicção absoluta de como irão jogar. De toda forma, esta nova seção que iremos inaugurar irá focar na apresentação dos diferentes jogadores especulados ou já acertados em outros clubes, comparando-os com seus futuros companheiros de clube e imaginando o que podem oferecer tática e tecnicamente para sua nova equipe.

Para fazer uma análise apropriada destes jogadores, selecionamos um total de 29 variáveis, disponibilizadas através do FBREF (“através” porque algumas foram combinadas e não são acessíveis diretamente no site) em quatro dimensões (defesa, passe, posse e finalização), e pretendemos analisá-los a partir de uma comparação do percentil destas estatísticas dos jogadores por cada 90 minutos jogados. Isto nos permite, pois, garantir o que chamamos de “normalização”, na estatística, comparando os atributos e atletas em pé de igualdade.

Tal procedimento é necessário porque, se formos olhar para os dados absolutos, iremos favorecer aqueles que jogaram mais jogos; e, se não utilizarmos o percentil, teremos valores muito diferentes que tornarão difícil visualizar as estatísticas em conjunto. Também evitaremos utilizar os radares, tão popularizados no meio futebolístico, porque eles dificultam a comparação entre os diferentes níveis dos jogadores: um gráfico de barras horizontal, seguindo o que é mais confortável para nossos olhos, é mais adequado para interpretar os dados.

Para facilitar este trabalho de comparação, inclusive criamos um aplicativo (feito em Shiny) para gerar estes gráficos automaticamente! Pretendemos compartilhá-lo futuramente, depois que melhorarmos seu código, incluindo novas opções, ajustando a reatividade e deixando sua navegação mais clara e fácil. Por enquanto, vamos apresentar as variáveis escolhidas para essa análise:


Defesa

  • DlAer: Duelos aéreos ganhos pelo jogador

  • Rec: Bolas recuperadas, as quais não possuíam nenhum alvo claro depois de serem cortadas

  • Fls: Faltas cometidas pelo jogador

  • Crt: Cortes, ou rebatidas, sendo as bolas retiradas de zona de perigo sem tem um passe claro

  • Int: Interceptações, mais especificamente antecipações a passes adversários, parando-os durante sua trajetória

  • DlDef: Duelos defensivos, incluindo bloqueios, os quais são, basicamente, interceptações na origem da jogada, muitas vezes com duelo físico entre os jogadores, desafios ao drible adversário e desarmes.

  • PrcDes: Precisão nos desarmes, contando se o jogador conseguiu recuperar a posse de bola após o desarme ou não.

  • Des: Desarmes, confrontos diretos pela bola, iniciados pelo próprio jogador.

Passe

  • Ast: Assistência, passes diretos para gol.

  • xA: Assistências esperadas, ou a soma das chances de gol a partir de passes dados pelo jogador.

  • PChv: Passes chaves, ou, então, passes que terminam com uma finalização.

  • CruzA: Cruzamentos na Área, se referindo ao número de cruzamentos bem sucedidos.

  • PPrg: Passes progressivos, na definição do FBREF, passes que adiantaram pelos menos 9 metros à frente em comparação com os últimos seis passes dados ou invadiram a área. Não conta os que não passam do meio-campo de sua equipe.

  • PrcPas: Precisão nos passes, quanto este jogador acerta os passes que tenta.

  • Pass: Passes, mais especificamente o número total de passes tentados.

Posse

  • PPDrb: Perda de posse driblando, ou o número de desarmes sofridos pelo jogador

  • ErDom: Erros de domínio, sendo perdas de posse pela incapacidade de dominar um passe de um companheiro de equipe.

  • RecPrg: Recebidas Progressivas, número de passes recebidos em que ele estava pelo menos 9 metros à frente dos últimos 6 passes ou invadiram a área. Não conta os que não passam do meio-campo de sua equipe.

  • CarPrg: Carregadas Progressivas, sendo o número de carregadas que adiantaram pelo menos 9 metros à frente dos últimos 6 passes ou invadiram a área. Não conta as que não passam do meio-campo de sua equipe.

  • PrcDrb: Precisão nos dribles, quanto este jogador acerta nos dribles.

  • Drb: Dribles tentados pelos jogadores.

  • Toq: Toques, ou quantas vezes o jogador é acionado no jogo.

Chute

  • Gls: Gols, quando a bola entra na rede.

  • npxG: Gols esperados (sem pênalti), as chances acumuladas pelo jogador durante as partidas e aproveitadas com chutes, sem incluir pênaltis.

  • xG: Gols esperados, o mesmo acima, mas com pênaltis.

  • Dist: Distância média dos chutes.

  • PrcCh: Precisão nos chutes, o quanto seus chutes acertam o gol.

  • ChG: Número de chutes no gol.

  • Ch: Número total de chutes.


A partir destas variáveis, comparamos os percentis dos jogadores por posições, divididas em três: Defesa, meio-campo e ataque. Sendo assim, teremos a inclusão de laterais e zagueiros, volantes e meia atacantes, pontas e centroavantes em nossa análise. Isto seria um problema se não fizéssemos análises relacionais, isto é, entre dois jogadores ou mais em nossa análise. Por isso, dá para se ter uma ideia da diferença de estilo de jogo entre estes atletas e, a partir desta comparação, esperamos encontrar insights que nos permitam imaginar como eles irão se encaixar nas suas equipes.

Hugo e laterais do Corinthians

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Viralizou, nos últimos dias, elogios de Filipe Luís, lateral esquerdo aposentado que jogou em Flamengo e Atlético de Madrid, a um jogador imprevisível: Hugo, do Goiás, que dizem estar apalavrado com o Corinthians. Para o Charla podcast, o lateral declarou o seguinte:

Gosto muito do lateral que o Corinthians contratou. Hugo, né? O nome dele. Ele era do Goiás. Gosto muito dele! Charla #309 — Filípe Luís (Lateral do Flamengo). Data: 08/12/23.

Esta afirmação certamente chocou alas da torcida corintiana, que esperava de Augusto Melo, recém eleito presidente do Corinthians, a busca imediata por contratações de peso para uma posição que passa um bom tempo sem um jogador de destaque e, ao ver a contratação de Hugo, não se animou nada com esta promessa. Desde que Guilherme Arana deixou o Corinthians, em 2018, não houve nenhum lateral esquerdo a entrar nas graças da torcida. Por isso, quando foi especulado o acerto com o jogador do Goiás, muitos se desanimaram e afirmaram estarmos diante de “mais um Bidu”.

Primeiro, precisa-se perguntar em que medida, de fato, Bidu deu errado no Corinthians. Obviamente, ele não obteve o mesmo sucesso de Arana e outros grandes nomes da posição, como Fábio (no auge) e André Santos, mas o xará do cachorro do Franjinha não fez má temporada. Falhou em alguns gols, mas também se destacou ofensivamente. Não dá para saber qual seria seu desempenho se houvesse alguma organização em campo: precisa-se considerar que, na bagunça que era o time do Corinthians de 2023, ele, de fato, dificilmente poderia fazer algo tão diferente do que foi feito.

Há chances, porém, do novo reforço obter um desempenho melhor. E o acerto, ao apostar em um jogador como Hugo, seria em dois sentidos: primeiro, contratar um jogador sem badalação, barato e ao final do contrato, com o objetivo óbvio de compor o elenco. É aceitar que se está contratando um “operário da bola”, com o objetivo de dar sustentação para a equipe, garantindo opções para o treinador ajustar a equipe. E, segundo, encontrar um equilíbrio nos estilos futebolísticos de Bidu e Fábio Santos, com um bom apoio ofensivo acompanhado de disposição e qualidade defensiva.

Neste caso, os números ajudam bastante a mostrar as características do jogador. Comecemos pelo lado defensivo, ao compará-lo com Fábio Santos:

Note como Hugo se mostra como um jogador com mais imposição física que Fábio Santos: busca mais duelos defensivos e tem maior precisão nos desarmes. Além disso, também avança bem nas interceptações e, em comparação com laterais, domina nas bolas aéreas (de acordo com o FBREF, ele estaria entre os 10% laterais com mais duelos aéreos vencidos dentre várias ligas). Ou seja, defensivamente Hugo parece ser bem completo, unindo a disposição de Bidu com a leitura de jogo de Fábio. Isto já seria um baita avanço para a composição de elenco porque garante uma adaptação melhor de seus companheiros ao seu estilo, uma vez que, quando Bidu e Fábio revezavam posições, era nítido que a equipe sofria com seus diferentes estilos. Hugo pode ser uma figura mais maleável neste sentido e garantir maior estabilidade para o time.

Por outro lado, ao compararmos a criação de jogadas, Hugo tem alguns avanços com relação a Bidu, mas perde em outros:

Para começar a análise, perceba como os passes progressivos diminuem, mas não na mesma proporção em que o total de passes diminui. Pelo contrário, se analisarmos, Hugo tende muito mais a passes para a frente (ele possui uma média de 275.2 metros avançados com passes a cada 90 minutos, contra 260.3 de seu futuro companheiro de clube); isto, contudo, penaliza bastante a sua precisão nos passes, o que o coloca entre os jogadores com menor proporção de acerto entre os defensores.

É justamente esta disposição ao risco que lhe permite criar boas chances pelas assistências esperadas, ultrapassando Matheus. E note que ele o faz sem ter tantos cruzamentos: este acerta 0.6 cruzamentos na área a cada 90 minutos, enquanto Hugo tem menos da metade destes (0.25). Ou seja, Hugo cria jogadas principalmente a partir de passes construídos, algo que pode servir para criar chances diferentes para o Corinthians. Além disso, por mais que acerte menos cruzamentos na área, Hugo acerta estes com mais frequência que Bidu: no Brasileirão, ele acertou 26% deles, enquanto o lateral corintiano acertou 21% (Sofascore). Se trata, pois, de uma mudança de estilo que pode auxiliar o treinador na armação da equipe, ainda mais para Mano Menezes, que prefere um estilo de jogo mais direto.

Outro ponto significativo de diferença se encontra na carregada da bola:

Inegavelmente, Hugo não possui o mesmo ímpeto com a bola que Bidu. Mesmo se considerarmos a diferença de toques, o jogador do Goiás passa longe do lateral esquerdo corintiano: enquanto um tem 0.57 dribles tentados a cada 90 minutos, com 58.1 toques, o outro tenta 1.96 dribles em 73.7 toques. Ou seja, Hugo precisa de mais de 100 toques para tentar um drible, enquanto Bidu precisa de apenas 37.6 toques para arriscar. Além disso, o suposto novo lateral do Corinthians não sobe tanto para receber passes, algo que, entretanto, deve ser relativizado, já que isto provavelmente decorre de sua atuação pelo Goiás, um time no qual estes passes não são muito garantidos. Nos outros pontos, suas características de posse de bola se assemelham bastante às de Fábio Santos, preferindo um jogo mais conservador e cuidadoso com os dribles.

Resumindo todos os pontos, Hugo parece ser uma boa substituição para Fábio Santos, mantendo a composição de elenco com um lateral mais defensivo. Fica a questão se Bidu será mantido e ambos revezarão as suas posições de acordo com as necessidades dos jogos, mas esta continuidade parece ser importante para o planejamento do elenco e faz sentido apostar em Hugo como um jogador para compor o time. Dificilmente ele será o craque dos jogos, restando esperar que contribua com intensidade (a qual ele mostra possuir mais do que Fábio Santos) e leitura correta do jogo. Em poucas palavras, ele pode ser um vetor significativo nesta reconstrução do Corinthians, representando uma mudança de cultura de contratações e no estilo da equipe. Pelo que podemos ver no vídeo abaixo, intensidade e vontade são coisas que certamente não irão faltar.

Renato Augusto e meias do Fluminense

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Grandes jogadores precisam, inevitavelmente, de grandes equipes para brilharem no nível em que realmente estão. Por isso, Renato Augusto e o Fluminense de Fernando Diniz parecem ser a combinação dos sonhos, uma união de almas em perfeita e pura sincronia. Não à toa, Renato já afirmou admirar o estilo de jogo do comandante tricolor:

“Não tenho uma opinião muito contra ou a favor [de Ancelotti na seleção], mas eu sou um grande fã do Diniz. Eu gosto dele, acho bem interessante a forma como pensa. Já até falei para ele que queria entender como chega a isso, entendeu? Eu sempre tive vontade de trabalhar com Guardiola para poder entender da onde tira os espaços até ele chegar o gol, para entender o processo. [O trabalho] do Diniz eu acho interessante, realmente interessante. É um jogo muito diferente do Guardiola, que é muito posicional, enquanto o dele é livre, de realmente rodar o jogador, mas é um conceito interessante que te faz ficar com a bola”. PLACAR. Renato Augusto estuda virar treinador, elogia Tite e diz ser fã de Diniz. Data: 22/10/23.

Após ter revelado sua intenção de se tornar treinador, chegou-se, nos últimos dias, a se especular se ele irá fazer um estágio com o atual treinador interino da seleção brasileira. De toda forma, com sua provável ida ao Fluminense, poderá selar ainda mais esta influência e garantir uma última oportunidade de mostrar seu futebol da maneira mais expressiva e livre possível.

Embora saibamos que o futebol do Dinizismo não se apega a posições fixas no campo, um bom começo para entender como Renato pode se encaixar na equipe se dá através de seu mapa de calor. Se comparamos estes, podemos ver qual seria sua função ideal na equipe, em especial se compararmos com os meias que mais se destacaram no Fluminense e com papeis parecidos aos do meia ex-seleção: Ganso e Arias.

Mapa de calor de Ganso no Brasileirão 2023. Fonte: Sofascore.

Mapa de calor de Arias no Brasileirão 2023. Fonte: Sofascore.

Mapa de calor de Renato Augusto no Brasileirão 2023. Fonte: Sofascore.

Como podemos ver, Renato se movimenta menos em campo em comparação com os dois jogadores do Fluminense. Obviamente podemos nos perguntar ao que se deve isso: é por mera opção tática dos treinadores que o treinaram (Luxemburgo e Mano Menezes) ou se deve à condição física deteriorada do craque? Mesmo que sua condição física não seja a ideal, há esperanças de que o departamento físico do Flu consiga colocá-lo nos trilhos.

Mas, em termos animadores, podemos ver que já está presente, no mapa de calor de Renato, a semente da ideia de Diniz: ele não se prende, de fato, a posições determinadas, flutuando em todos os espaços do campo, mesmo que não o faça com a mesma frequência que Ganso. O que, de fato, não se pode esperar muito dele é a pisada na área, tal qual é proporcionada por Arias. Por isso, torna-se claro que seu papel se aproximará muito mais do estilo de jogo de Ganso, focando-se em um jogo mais centralizado e com ampla movimentação e liberdade para buscar a bola vindo de trás e pegar a bola na entrada da área.

Há semelhanças e diferenças entre estes dois. Comecemos por onde certamente eles terão maiores expectativas: no passe.

A semelhança entre eles é significativa: possuem altos níveis de assistência esperadas, que talvez seja a estatística mais importante por aqui, em conjunto com passes progressivos e passes chave. Por isso, seus estilos estão bastante próximos, com a diferença que Renato parece exercer um passe mais final que o de Ganso, revelado pela sua melhor posição em passes chaves e pior aproveitamento de passes. Além disso, Ganso dá mais passes, o que denota, justamente, que realiza um papel maior de flutuação e apoio na construção das jogadas. Neste ponto, é importante lembrar que Luxemburgo, o treinador mais longevo do Corinthians em 2023, é famoso por evitar estas movimentações, exigindo que os craques fiquem posicionados mais à frente. Ou seja, é bastante provável que boa parte da limitação de movimentação e número de passes do craque corintiano venha, de fato, de instruções técnicas. Diante de maior liberdade posicional, portanto, esperamos que Renato aumente estas estatísticas sem problemas e avance cada vez mais nessa direção.

Outro ponto bastante importante para a atuação do craque carioca certamente será a condução da bola:

Mais uma vez, vemos Ganso tendo mais ações com a bola — e isto é algo um tanto quanto óbvio quando comparamos a posse de bola do Fluminense com a do Corinthians. O time carioca, por exemplo, teve 26% mais passes que o time paulista durante toda a temporada. Por outro lado, Renato se mantém, novamente, como um jogador mais agudo que Ganso: ele busca muito mais dribles que o ex-parceiro de Neymar, assim como tem mais carregadas e recebidas progressivas. Se formos comparar estes números com Arias, Renato está bem atrás do meia colombiano, mas seu papel pode servir como um meio-termo na hora da posse, trazendo objetividade e jogo direto à equipe sem abrir mão do controle e domínio do jogo.

Esta característica, contudo, traz alguns problemas, como é demonstrado no erro de domínio maior e desarmes sofridos, mas não temos meios efetivos, por meio desta comparação, para precisar quanto se deve diretamente do próprio Renato. Afinal, é muito mais complicado dominar uma invertida de jogo — as quais ele recebia bastante no Corinthians, ao ficar mais fechado na ponta — ou uma pedrada entregue por um jogador com menor qualidade técnica. Para comprovar isto, basta ver o número de perdas de posse de Ganso, cujo número menor certamente também provém de suas condições de jogo. De toda forma, os números de Renato não são ruins, uma vez que ele está num percentil abaixo ao de seu número de toques, o que representa que ele mantém muito mais a bola do que a perde. Ainda assim, mais uma vez, a expectativa é que estes dados se suavizem com a sua ida para o Fluminense.

Algo que não esperamos reduzir, pelo contrário, é sua condição de chutar, a qual, podemos estipular, Renato terá condições ainda melhores para aproveitar ao máximo sua qualidade nesta área.

Como podemos ver, Renato finaliza mais do que Ganso, assim como acerta mais as bolas no alvo. Contudo, as chances de Ganso são mais claras, tendo-se um xG maior que o acumulado por Renato (0.08 x 0.12, por 90 min) e uma distância média menor de finalização (22.8 x 19.1). O quanto isto se deve ao jogador ou ao clube não é fácil precisar exatamente, mas, se o maior xG de Ganso se transferir de alguma forma para Renato, o futuro promete para o torcedor tricolor. Tais chances, se forem apresentadas para o craque, certamente serão aproveitadas e veremos um aumento significativo em seu número de gols. Note-se, também, que muito dos “baixos” números de Renato não são por falta de qualidade, mas bastante se deve ao azar (por exemplo, seu PSxG acumulado é de 3.1, enquanto teve apenas 2 gols, enquanto Ganso acumula 3.03 destes, com 3 gols) e ao desempenho geral ruim de sua equipe.

Por outro lado, feitas estas ressalvas, é inegável que alguns números de Renato vem decaindo desde que ele retornou ao Brasil. Em uma rápida checagem vemos: os xGs a cada 90 minutos caindo de 0.16 para 0.09 e, finalmente, 0.08 (caíram metade); o número de passes foi de 62.8 para 66 e terminam em 53.3; os duelos defensivos começam com 4.01, baixam para 3.39 e chegam a meros 2.46 em 2023.

Estes números podem indicar, por mais triste que seja esta informação, um declínio físico de nosso craque, mas, se há alguma esperança, ela também reside nos dados. Renato aumentou as suas chances criadas nos últimos anos: foi de 3.34 em 2021 para 5.26 e, finalmente, chegou em significativos 5.56; reestreou com 0.79 chutes no alvo, baixou para 0.64 com Vitor Pereira e teve 0.85 neste último ano. Ou seja, o craque ainda pode brilhar, se a bola for bem administrada e estiver em boas mãos.

Por isso, a esperança dos torcedores do Fluminense — e de todo apreciador do bom futebol — é que Diniz consiga despertar em Renato a chama inspiradora dos craques, e que ela o leve a desfilar em campo com a maestria elegância que só ele tem. É normal que esperemos uma última valsa para honrar o talento de um dos maiores jogadores do futebol brasileiro contemporâneo. E, para finalizar este texto, deixo aqui uma compilação de jogadas do nosso craque, feitas pelo excelente canal Futebol Nacional. Que Renato nos abençoe com seu futebol por muito tempo ainda!