Inegavelmente, o futebol brasileiro é marcado por figuras folclóricas: dentre Garrinchas, Romários, Renatos Gaúchos, Amarais, Capetinhas (que agora está no mesmo nível que Messi), nosso futebol nunca deixou de nos prover personagens icônicos. Contudo, quando olhamos para os treinadores, pouquíssimos podem bater de frente com Vanderlei Luxemburgo no quesito carisma. Sua malemolência carioca, unida à sua irreverência e ao seu ego um “pouquinho” inflado fazem dele simplesmente uma verdadeira fábrica de memes. E, como não poderia deixar de ser, seu retorno à primeira prateleira do futebol brasileiro nos brindou com muitos momentos divertidos do treinador. O jornalista Renan Oguma compilou algumas cenas em seu tiktok:
@renanoguma Um resumo da passagem de Vanderlei Luxemburgo pelo Corinthians #corinthians #luxemburgo #luxa #futebol #4u #foryou ♬ som original - Renan Oguma
Para além do entretenimento, por outro lado, o futebol do Corinthians foi bastante oscilante durante este período. Conquistou grandes resultados, como a eliminação do Atlético Mineiro na Copa do Brasil, vitórias contra equipes argentinas na Sul-Americana, etc., ao mesmo tempo em que o desempenho foi por vezes simplesmente terrível. Logo no começo de seu trabalho, sofreu uma derrota histórica para o Indepediente del Valle, fez um jogo horrível contra o Argentinos Juniors na Argentina e chegou a abrir mão dos campeonatos continentais, para, depois, ser salvo pela garotada nos mesmos.
Aqui está, inclusive, um gancho central para explicar a paciência de muitos com o trabalho do treinador: seu olhar para a base. Como veremos melhor mais à frente, a própria torcida reconhecia méritos do “pofexô” neste sentido. Todas estas qualidades em seu trabalho, contudo, foram perdendo força conforme o time mostrava seus limites e mantinha sua inconsistência jogo após jogo. No findar de tudo, Luxa foi demitido no dia 27/09/2023, sendo substituído logo em seguida por Mano Menezes.
O objetivo deste texto, portanto, será mostrar as reações da torcida à gestão de futebol de Luxemburgo no Corinthians. Como já falamos, foi uma verdadeira montanha russa de emoções, com um futebol que o torcedor corintiano não está tão acostumado. Assim, podemos tirar algumas lições destes comentários para entender o que os torcedores querem.
A evolução da percepção do trabalho de Luxa: análise de sentimentos
Metodologia
Os sentimentos dos torcedores sobre a condição do trabalho e gestão de um clube pode ser visto, parcialmente, em suas mídias oficiais. Isto se dá porque, ao comentar por lá, ele se sente diretamente em interlocução com o clube, o que é diferente, por exemplo, do comentário feito em canais esportivos e outras mídias, nas quais se tem como interlocutor outros torcedores e jornalistas esportivos.
Por isso, para “medir” o contentamento da torcida, faz muito sentido ir para estes canais oficiais. Por outro lado, as manifestações nem sempre se dão com a mesma intensidade, variando a partir do tipo de jogo, momento na temporada, competição disputada, etc. Além disso, aquela máxima da ingratidão no futebol é absolutamente verdade quando analisamos os comentários de torcedores no youtube: jogadores são elogiados em um dia e escrachados no outro; da mesma forma, pode-se ir de um gênio e mestre tático a ultrapassado em poucas semanas.
Para definir a opinião dos torcedores sobre o time e o treinador, coletamos os sentimentos dos termos utilizados por eles na seção de comentários das coletivas pós-jogo. Os sentimentos foram interpretados a partir do OpLexicon 3.0, organizado pela PUC-RS, e processados através do pacote lexiconPT, disponibilizado por Silas Gonzaga. Neste caso, simplesmente contamos as palavras com seus níveis de polaridade por vídeo, sem pretensão de organizar algo muito extenso. E, ao final, obtemos o valor geral dos comentários a partir da porcentagem da polaridade positiva presente em um corpus subtraídas pela porcentagem de polaridade negativa, sem incluir os sentimentos neutros na contagem de frequência.
Vamos dar um exemplo para ser mais claros. Digamos que nós encontramos os seguintes comentários:
[1] “Horrível mesmo foi tirar o fausto pra colocar o giuliano, o pedro merece mais chances !!!!”
[2] “O problema parece psicológico dos jogadores, o medo de jogar fora de casa e vencer.”
[3] “Não dá pra se iludir com esse time, jogaram tudo na quarta e hoje estavam mortos em campo.”
[4] “Sinceramente, é doloroso assistir Yuri Alberto de centroavante. Pior ainda é saber que ele ganha 1,5 milhão. Kkkkkkkkkkk. Vai ser um ano difícil. Se ficar entre os 10 primeiros no Brasileirão tá maravilhoso.”
Após tokenizar e processar os comentários, seus resultados seriam os seguintes:
Comentário 1: -1 por “horrível”;
Comentário 2: -2 por “vencer” e “medo”;
Comentário 3: -1 por “mortos”.
Comentário 4: -3 pontos por “doloroso”, “difícil” e “pior” e +1 por maravilhoso.
Assim, após analisarmos todos os comentários, chegamos ao resultado de 5 termos negativos e 1 positivos. No final, ao invés de somá-los, o que daria um valor de -4, apenas calculamos a diferença entre a porcentagem de comentários positivos e negativos. Sendo assim, nossa métrica seria de 6/7 (85.7%) comentários negativos e 1/7 (14.3%) positivos, o que, em nosso gráfico, o colocaria com o valor -0.714 (0.143–0.857). A diferença é que este nosso procedimento realiza este cálculo com todos os comentários presentes no vídeo, o que é muito mais fácil de ser feito a partir de métodos computacionais.
Uma das primeiras coisas que faríamos para melhorar este algoritmo seria adicionar a negação das frases para controlar este problema. Contudo, como tratamos de comentários no youtube, esta tarefa seria bem mais complicada por conta da gramática imprecisa em nossos textos. Sendo assim, decidimos manter a simplicidade de nossa análise, sem tantos processamentos dos dados. E, como veremos, apesar de suas limitações, ela representa relativamente bem as variações de ânimo da torcida.
Resultados

Para deixar nosso gráfico mais claro, representamos as coletivas positivas com a cor azul e as negativas com o vermelho, estendendo as linhas até o nosso cálculo de sentimentos, apresentado anteriormente. E, para mostrar a variedade de engajamento nas coletivas, adicionamos o número de comentários abaixo ou acima das nossas linhas.
Antes de tratarmos dos jogos específicos, podemos perceber algumas variações bastante significativas: primeiro, os comentários positivos raramente são consistentes. Uma das razões para isto é a própria inconsistência do trabalho de Vanderlei: logo após a vitória sobre o Atlético Mineiro, no dia 31/05, por exemplo, o ponto mais alto de reação positiva da torcida, o time conseguiu perder para o América Mineiro e sofreu uma goleada do Independiente del Valle, no Equador.
Outro ponto importante é que, após as vitórias, os comentários não possuem o mesmo volume que nas derrotas. Uma boa justificativa para isto é o fato de que muitos jogos ganhos foram em copas ou jogos de foco menor, como contra os candidatos ao rebaixamento, o que reduziu a atenção da torcida para estes jogos. Além disso, uma questão que parecia incomodar demais a torcida era o surgimento de exibições ruins em casa: houve um grande número de protestos diante destas, como foi no caso da derrota contra o Bragantino (02/07) e empate com o Goiás (26/08). Exibições apáticas e erros individuais também chamavam bastante comentários, como foi o caso contra o Bahia (22/07), Internacional (05/08) e Cruzeiro (19/08).
Alguns outros jogos também tiveram um resultado negativo diante de comentários feitos com relação a casos extra-campo: foi o caso, por exemplo, do jogo contra o Santos, em 22/06, no qual se criticou a ação das torcidas organizadas da equipe praiana, e contra o Universitário, no Peru, em 18/07, com os torcedores criticando o racismo dos torcedores peruanos e o pedido de desculpas do próprio Luxemburgo, pela comemoração de Ryan.
A partir da derrota para o São Paulo, no jogo de volta da Copa do Brasil (17/08), não se teve quase nenhuma coletiva de Luxemburgo com um balanço positivo, com exceção da vitória sobre o Botafogo. Mesmo a vitória contra o Estudiantes na ida das quartas da Sulamericana (22/08) não teve um balanço positivo, obtendo-se, para piorar, o segundo menor engajamento de todas as coletivas. Até parece que os torcedores sabiam o sofrimento que seria o jogo da volta. Por isso, é inegável que — aos olhos da torcida, pelo menos —, por mais que o time ganhasse, ele não convencia.
E, por fim, em sua coletiva derradeira, teve-se o pior balanço de sentimentos, com uma vitória acachapante dos termos negativos, de acordo com o dicionário léxico aqui utilizado. Podemos, então, dar uma breve olhada nos termos presentes em alguns vídeos para entendermos a instatisfação da torcida.
Análise dos comentários em jogos selecionados
Do céu ao inferno: a inconsistência
Comecemos com uma demonstração dos comentários no jogo de avaliação mais positiva da torcida: o jogo contra o Atlético Mineiro (31/05) na volta das oitavas da Copa do Brasil.

Ao contrário do que esperavam os torcedores, a classificação veio e com uma ambição tática inesperada do professor: sua aposta em três zagueiros surtiu efeito e modificou o jogo. A citação do termo “ultrapassado”, aqui, é usado pela maioria dos torcedores para criticar aqueles que assim chamavam o “profexô”, utilizando-se também termos de reconhecimento de sua qualidade (como “entende” e “sabe” [de futebol]). Também temos termos clássicos de encorajamento da equipe ([vamos pra] “cima”) e congratulações pela classificação (“parabéns”). Contudo, após o ápice da adrenalina, logo veio a realidade e o Corinthians foi derrotado pelo América Mineiro no jogo seguinte.

Após esta derrota inesperada, os torcedores deixam claro sua preferência pela classificação na libertadores (“libertadores” e “quarta”): se era para poupar jogadores e perder para o América, tinha-se a obrigação de vencer o jogo contra o Independiente del Valle. Como você já deve saber, este não foi o caso: o time foi derrotado mais uma vez. De positivo, por outro lado, cita-se a atuação do jovem Pedro, um dos jogadores que logo ganhou chances com Luxemburgo.
No dia 11, logo após esta sequência de derrotas, o Corinthians empatou com o Cuiabá em casa. Foi um jogo difícil, no qual o time podia ter saído com a vitória, mas a fase ruim de Yuri Alberto atrapalhou os planos da equipe. Este foi mais um momento estremecido de confiança em seu treinador.

Ao perder a chance de se distanciar da zona de rebaixamento ganhando de um candidato direto ao rebaixamento, a torcida se desespera e chega até mesmo a falar em cair para a série B (“cair” e “série”). Há, também, menções ao futebol de baixa qualidade praticado pela equipe (“ruim” e “pior”). Por isto, as retomadas e vitórias do Corinthians de Luxemburgo parecem ser vistas muito mais como correção de rota e compensação por erros do que qualquer outra coisa. Não surpreende, pois, que os torcedores não se mobilizassem diante de suas vitórias: elas se davam sempre no fio da navalha e impediam que eles se animassem, de fato, com o time.
Também surgiu, neste caso, a lembrança do treinador Cuca, que se demitiu do clube depois de forte pressão popular para sua retirada do comando da equipe por conta de seu histórico de condenação na Suíça por ter relações sexuais com uma jovem de 14 anos durante viagem do Grêmio ao país em questão. Para se ter uma ideia, o comentário mais curtido era: “culpa dos lacradores [sic] que demitiram o cuca”.
Não é o intuito deste texto debater este tema, mas sua contradição é tremenda: tanto por defender um técnico que mentiu para um clube com o histórico do Corinthians; por, provavelmente, ter sido feita por um “patriota” que, também provavelmente, é a favor de castração química contra o estupro e deve se dizer contra a sexualização de crianças; por jogar a culpa de resultados ruins pela demissão de um técnico que mal treinou a equipe, enquanto se vê um departamento de futebol totalmente sem planejamento, com praticamente a mesma linha defensiva de há quase dez anos atrás.
Carisma e entretenimento
Para falar de algo mais leve, os torcedores também destacaram os momentos descontraídos com o treinador nas coletivas, mesmo que em menor volume. Logo após a vitória sobre o Universitário do Peru (12/07), por 1x0, com gol de Felipe Augusto, Luxemburgo viralizou ao dar força para o jovem jogador durante sua coletiva.
A torcida, como podemos ver, se divertiu com o clima de descontração — notem como “kkk” assumiu a linha de frente de termos:

Há elogios, também, pelo fato de lançar jovens (“molecada”) e dar chances para os jogadores reservas (“reservas” e “banco”). Alguns mais emocionados até defenderam que Felipe Augusto tomasse a titularidade de Yuri Alberto. Outro momento no qual Luxa brilhou foi em sua entrevista pós-jogo contra o mesmo Universitário, desta vez no Peru (18/07), em clima hostil:

Ali, os torcedores se opuseram ao pedido de desculpas do treinador e Roger Guedes, seu parceiro de coletiva neste dia, e defenderam o menino Ryan, que incendiou os jogadores e torcida adversária com sua comemoração. Há também menções ao “portunhol” de Luxemburgo, comparando-o com o inglês de outro veterano treinador brasileiro (Joel Santana). O treinador mantém o mesmo espanhol desde os tempos de Real Madrid e não se excusa de dar uma palhinha sempre que pisa em terras hispanohablantes.
Em direção à queda
A coletiva mais comentada foi após o jogo contra o São Paulo, no dia 17/08, com 755 comentários, que selou a eliminação da equipe da Copa do Brasil. A sua nuvem de palavras é a seguinte:

Destaque para as palavras “covarde”, “medroso”, “escalou” e “escalação” junto com “mal” e “errado”, assim como “jogou” e “nada”, além da famosa alcunha “luxemburro”, assumidamente temida pelo próprio treinador. Entretanto, Luxemburgo não foi o único criticado pela torcida: Gil, Fábio Santos, Fausto Vera, Yuri Alberto, Fágner e Rojas foram citados negativamente, enquanto Wesley foi elogiado e se questionou a sacada de Moscardo da equipe. A torcida não ficou nada contente com este jogo! Se nosso modelo fosse melhor, certamente teríamos um número ainda pior para o treinador.
Na única coletiva com índices piores do que esta, logo após o jogo contra o Fortaleza pela ida da semi-final da Sul-Americana (27/09), feita depois de 7 jogos, com apenas uma única vitória, o foco das críticas parece ter ficado com o nosso professor:

Como podemos ver acima, além de Luxa, o descontentamento chegou a respingar no presidente do clube, Duílio Monteiro Alves. A própria menção ao termo “casa” reforça, mais uma vez, o que já foi dito acima: há um imenso incômodo, pelo menos por parte da torcida, pela perda de força na Neoquímica Arena. Também há clara menção ao desempenho da equipe, mais do que o resultado, com referência ao “jogar” “bem” e “nada”, assim como parece se referir à estagnação do trabalho. Tudo presente neste jogo, portanto, reforçou os limites que se via no trabalho de Luxemburgo e o fato disto ter chegado até o nome do presidente certamente deve ter sido algo importante para fazê-lo agir.
Conclusão
Se Mano Menezes não conseguir reverter o cenário na Sulamericana, Duílio Monteiro Alves entrará em um seleto grupo de presidentes do Corinthians: aqueles que não conseguiram conquistar um único título pelo clube durante todos os seus mandatos. Isto não acontece há 35 anos! Por isto este desespero e a aposta derradeira no espírito copeiro de Mano Menezes: há poucas coisas feitas no Corinthians com planejamento. Em uma defesa sutil ao nosso professor, a reação da torcida é justificada, mas não pode ser individualizada na figura do treinador. Ou melhor, para ser justo, a torcida sabe muito bem disso: as constantes críticas aos medalhões, como vimos aqui, provam isso. Todos sabemos, pois, que há problemas muito maiores pela frente para o time do Parque São Jorge e a demissão de Luxemburgo não é, de forma alguma, uma solução imediata.
E, quanto ao professor, desejamos a ele sucesso em seu próximo trabalho. Mas, sinceramente, torço para que ele decida se reencontrar com Cléber Machado e utilize seu carisma para comentar nossos jogos. Uma figura carismática como ele não pode ficar muito tempo distante de nossas televisões. Para nos despedir, fique com uma obra prima em homenagem ao nosso treinador “de vanguarda”: