Everton Ribeiro: embaixador do Bahia City
Precisamos começar com a contratação mais ousada e inesperada desta janela: Everton Ribeiro no Bahia. Depois de 7 anos no Flamengo, sem chegar em um acordo de renovação de seu contrato, o meia foi seduzido pelo projeto da SAF tricolor, assumindo um protagonismo que certamente não teria se permanecesse no Flamengo.
Everton se consolidou na equipe rubro-negra jogando como um falso ponta pela direita, como podemos ver em seu mapa de calor abaixo:

Tal posição parece nos levar a crer que provavelmente ele poderá jogar junto de Cauly, craque do Bahia na última temporada, que pode fazer várias funções distintas. No caso, como veremos, Everton provavelmente ficará melhor acomodado em uma função na qual não precise ser tão agudo, cabendo a outros que busquem estas infiltrações. Talvez ele seja até mesmo recuado e perca esta rigidez em seu posicionamento, participando mais do jogo enquanto um articulador do ataque. Isto faz sentido se olharmos seus dados no passe:

Como fica claro, ambos meio-campistas baianos são excelentes na criação de jogadas, com alguns destaques a mais para Everton quando falamos de número de passes, passes progressivos e cruzamentos na área. Isto indica, então, que ele se acomodaria bem em uma posição mais recuada, tendo o papel de realizar mais passes e encontrar espaços para o jogo da equipe, com um foco especial em passes que quebrem as linhas. Jogadores que se adiantam muito obviamente não possuem tantos passes progressivos, o que mostra que Everton e Cauly exercem papeis diferentes na criação.
Se você não entender o que estamos apresentando nos percentis, o que eles são e como chegamos a eles, cheque a seção introdutória do primeiro Análise de Mercado:
No caso, Cauly parece ser o jogador ideal para unir estas pontas do ataque e arriscar jogadas agudas a partir da ligação com Everton. Isto pode ser reforçado por sua qualidade no drible:

Cauly é simplesmente um dos líderes em carregadas progressivas e dribles e, por consequência destas investidas, costuma perder a bola com alguma frequência. Everton, por sua vez, perde menos a bola, mesmo que tenha mais toques, o que indica um jogo mais cauteloso do meio-campista ex-Flamengo, perfeito para articular a equipe lá atrás. Certamente teremos uma boa combinação entre estes estilos, inclusive abrindo espaço para que Everton tenha condição de arriscar alguns chutes a partir dos espaços criados por Cauly. Esta ideia pode ser reforçada com seus números no chute:

Veja que Everton possui uma boa precisão nas finalizações, acertando bastante o gol, mas não costuma chutar tanto. Sua qualidade fica evidente quando notamos que ele possui mais gols com menos chutes e gols esperados que Cauly, o que mostra sua eficiência ofensiva. É preciso destacar, também, que a falta de chutes não vêm apenas de suas características, mas também do ambiente em que se encontrava anteriormente, jogando em uma equipe com tantos finalizadores como o Flamengo. No Bahia, que possui inegáveis problemas de pontaria, Everton pode se libertar e arriscar mais, buscando colocar em prática suas batidas cheias de técnica.
E, por fim, para selar de vez a análise, podemos notar que o novo meia do Bahia também tem algo a contribuir na defesa:

Obviamente, ninguém espera que Everton seja o desarmador da equipe baiana – para isso já se tem Rezende e Acevedo –, mas é importante que este jogador tenha alguma noção para cobrir os espaços e ajudar na pressão, ainda mais se jogar mais recuado. No caso, o fato de Everton conseguir um número razoável de interceptações e recuperações de bola parece indicar que ele terá condições de cumprir bem esta função, ainda mais quando comparamos seus números com os de Cauly. Talvez seja demais pedir que ele seja o líder na pressão, mas certamente ele poderá contribuir bastante com a cobertura dos espaços, o que indica uma boa combinação no meio-de-campo tricolor. Mesmo que exista um certo declínio físico, que fica claro na queda da média de duelos ganhos a cada 90 minutos (de 2021 para 2023, no Brasileirão, a evolução foi de 7.04 → 7.97 → 4.94), Everton ainda possui condições de render fisicamente, ainda mais se seu tempo de jogo e preparação física forem bem geridos.
Sendo assim, nos parece certo que o pai do Totói irá ajudar muito o Bahia, ainda mais se escalado em conjunto com outros jogadores que possam cobrir suas deficiências. No caso, Cauly mais adiantado, Rezende ou Acevedo na cobertura e pontas com boas condições de fazer pressão e o facão parecem uma combinação ideal, que garantirá um ambiente propício para que o craque consiga criar e inventar jogadas com suas magias. É um baita jogador e certamente será um excelente embaixador para o projeto do Bahia City.
Bruno Rodrigues: empenho, progressão e composição de elenco
Bruno Rodrigues foi especulado em várias equipes – sua transferência para o Fluminense já estava praticamente selada – quando, absolutamente do nada, saiu o anúncio de sua contratação pelo Palmeiras. Um dos temas polêmicos sobre este negócio é o seu valor: podemos dizer que Bruno vale, de fato, o que supostamente foi pago por ele? A tendência é que ele tenha custado pelo menos R$ 30 milhões! Apesar de todo o debate, é preciso ressaltar que Bruno Rodrigues se destacou pelo Cruzeiro, sendo um dos melhores jogadores do clube mineiro.
Sua posição é na ponta ou como segundo atacante, aproximando-se dos papeis de Dudu e Breno Lopes. Supondo que Abel mantenha a mesma tática para ano que vem e, diante da lesão de Dudu, faz sentido compará-lo com Breno Lopes. Além disso, com a reformulação do elenco, espera-se que ou Breno ou Rony deem mais espaço para o novo atacante palestrino.
Vejamos seus números na finalização:

Bruno claramente não possui o mesmo volume ofensivo de Breno, ainda mais se considerarmos que prevalecem chutes de longe e seus gols vieram em boa parte de cobranças de pênalti. Isto demonstra que o novo atacante do Palmeiras tenderá a ter dificuldade para cumprir o papel de infiltração nos espaços feito por Rony, que consegue realizar este papel com qualidade. Contudo, mesmo que os números presentes pareçam colocar Bruno Rodrigues como um finalizador ruim, este não necessariamente é o caso, ainda mais se considerarmos seus valores de gols esperados: chutando de longe, é esperado que se tenha mais erros de finalização. Além disso, ele apresentou uma boa eficiência ofensiva (sem considerar pênaltis).
De toda forma, se o ex-Cruzeiro for cumprir o papel de Breno Lopes, Abel provavelmente terá que ter algum tempo para adequá-lo e adaptá-lo às suas atribuições. Por outro lado, há algo que ele poderá contribuir com a qual o veterano palmeirense não é tão bom: na condução de bola.

Bruno é bem mais agudo que Breno: busca muito mais dribles, tem maior precisão nestes e recebe mais bolas à frente. Além disso, se demonstra mais envolvido no jogo, o que o coloca muito mais como um construtor do que um finalizador, que tende a se isolar na área. Isto demonstra, então, que um papel bem mais adequado para ele seria o de ponta ou de segundo atacante, ainda mais quando comparamos com os números de seu futuro companheiro. Ele precisa deste espaço para correr e fazer a diferença com seus dribles, os quais podem garantir uma vantagem significativa no contra-ataque.
Mas, mais do que isso, ele também contribui bastante para a equipe com seus passes, indo além de seu “concorrente”:

Algo interessante a ser notado é que o veterano palmeirense possui mais assistências mesmo sem ter criado tanto: perde em assistências esperadas, passes chaves e progressivos e cruzamentos na área. Em números puros, ele criou 3.8 chances a cada 90 minutos, enquanto Breno criou “só” 2.44. Ou seja, Bruno Rodrigues cria muito mais oportunidades para seus companheiros, mas não conseguiu ter o mesmo número de assistências por conta da ineficiência ofensiva do Cruzeiro. A tendência, pois, é que ele tenha números melhores pelo Palmeiras, já que suas chances provavelmente serão melhor aproveitadas.
De toda forma, empenho e capacidade técnica para fazer um bom campeonato pelo Palmeiras ele com certeza possui. A grande questão, contudo, será como o Palmeiras irá se organizar futuramente. Uma boa opção talvez seja a manutenção da dupla de ataque, mas com um caminho um pouco diferente ao proposto inicialmente: Bruno talvez se saia melhor disputando posição com Dudu, como segundo atacante, enquanto Rony, Breno e Flaco López se encaixariam melhor como os centroavantes da equipe. Aliás,Breno poderia ser o “coringa” nesta linha de ataque, podendo jogar em ambas posições.
O segredo para o sucesso de Bruno, acreditamos, virá de sua adaptação a estes papeis, já que ele certamente trará elementos únicos para serem utilizados por sua equipe, tendo qualidade de criação, progressão no drible e físico bom para as disputas de bola. De toda forma, este é um quebra-cabeça interessante para acompanhar como o maior treinador do futebol brasileiro irá organizar sua equipe. E espera-se que ele também consiga fazer com Bruno o que fez com Rony e tantos outros, ajudando-os a atingir outro patamar.
Raniele: novo Ralf?
Raniele vem para o Corinthians em um momento de reconstrução e, mais especificamente, provavelmente terá que substituir o menino Moscardo, prestes a ser vendido para o PSG. Sendo assim, faz sentido comparar os dois, mas, ao mesmo tempo, precisa-se reconhecer que o jogador ex-Cuiabá não irá cumprir as mesmas funções do jovem que se destacou pela combinação inusitada de físico, qualidade técnica e maturidade com tão tenra idade. De toda forma, por mais que não seja tão fora da curva como Moscardo, Raniele tem condições de cumprir um papel fundamental na equipe, sendo o xerife que faltou em muitos jogos da temporada passada. Isto pode ser comprovado ao olharmos seus dados na defesa:

Inegavelmente, os dois jogadores são líderes em matéria de defesa, apresentando valores entre os 20% e 10% melhores meio-campistas nestes fundamentos. Gabriel se destaca mais nos duelos defensivos e nas interceptações, enquanto Raniele tem números melhores nas bolas aéreas e cortes. Ou seja, o segundo se posiciona mais recuado que o primeiro, sem tantos recursos de recuperação de bola mais à frente. Por isso, o reforço corintiano pode jogar como primeiro volante ou, ainda, até mesmo como zagueiro, mas dificilmente se adequaria bem como segundo volante. Isto fica claro quando olhamos seus números nos passes:

Claramente ele está abaixo de Moscardo nos passes, por mais que seja um pouco mais progressivo. Os erros e os números de passe, contudo, não podem ser atribuídos apenas ao jogador, uma vez que, ao jogar no Cuiabá, suas possibilidades de construir o jogo obviamente são muito menores que as disponíveis para o volante corintiano, que jogou em uma equipe com mais posse. O estilo de jogo de Raniele, por outro lado, parece se adequar bem ao estilo de Mano Menezes, focando em passes progressivos, o que pode facilitar sua adaptação ao clube.
Porém, a pior perda nesta troca, de longe, será na posse e carregada de bola:

Moscardo é muito mais driblador que seu substituto, tendo mais dribles, maior precisão e um pouquinho mais de progressão. Novamente, a consideração sobre a posse é importante, mas não faz muito sentido esperar que Raniele seja o maior driblador e limpe as jogadas como o jovem da base corintiana o fazia. Este talvez seja um dos grandes motivos que o fez ser cobiçado pela Europa: a capacidade de sair jogando é simplesmente absurda para um jogador com a sua idade.
Contudo, é inegável que Raniele lembra, futebolisticamente, muito mais um ídolo da fiel torcida: Ralf. As semelhanças são muitas: ambos chegam de times pequenos, depois de terem uma boa temporada, com um pouco mais de idade do que o convencional. Óbvio que não podemos cravar que terão o mesmo desempenho, mas seus estilos, comparados, são próximos. Para exemplificar, vamos colocar as estatísticas de Ralf, em 2019 (lembre-se que Ralf foi importante na retomada do clube em 2019 e não fez uma temporada ruim), e as de Raniele em 2023, por 90 minutos:
Desarmes: 2.35 x 2.31
Interceptações: 1.97 x 1.25
Cortes: 2.25 x 3.39
Bloqueios: 1.36 x 1.79
Duelos defensivos: 6.76 x 5.75
Duelos ganhos: 5.1 (59%) x 6.9 (61%)
Como podemos ver, há diferenças: Raniele possui mais duelos ganhos, bloqueios e cortes, enquanto Ralf tinha mais interceptações e duelos totais. Os números, contudo, não são tão distintos, e, na verdade, o novo jogador do Corinthians parece ser um jogador mais qualificado para o jogo aéreo, mesmo que Ralf não fosse, de forma alguma, deficiente nesta área.
Ambos são claramente primeiros volantes de extrema qualidade e a expectativa é que o novo jogador corintiano traga a fisicalidade necessária para uma equipe que sofreu absurdamente com a perda de duelos na temporada. Na temporada passada, o Corinthians teve apenas o 15º maior número de desarmes e de desafios ganhos, uma posição muito baixa para uma equipe que se destacou, na década de 2010, por seu estilo de futebol defensivo e físico. Por isso, Raniele surge como uma esperança de retornar às vitórias custe o que custar, mesmo que seja mais pelo suor e garra do que pela qualidade técnica. Depois de tanto tempo com um elenco envelhecido, talvez seja exatamente isso o que o torcedor precisa para voltar a acreditar em seu time.
